Toinzinho e o circo

May 3, 2017

Por Romualdo Lisboa* 

 

O circo é sempre mágico no imaginário das crianças. No imaginário do meu avô também era. Em Ibicaraí, o circo era montado num aterro próximo ao Grupo Escolar Artur Neiva, minha primeira escola – vou aproveitar para fazer um parêntese a respeito da minha estadia nessa escola: o fato é que eu nunca estudei lá realmente, porque toda vez que eu me aproximava do portão de entrada, um engraçadinho gritava: “Dotô Pasta Pura, vai dar injeção na escola hoje”. Era a conta para eu voltar em disparada, e chorando para os braços de minha avó, de modo que aos seis anos de idade não conseguia frequentar a escola regularmente. Mas vamos voltar à história do circo.

 

Do meu avô é que peguei a mania de gostar de circo velho: “Rimuardo, nesse nóis vai. É circo americano, mais buraco do que pano.” – falava o velho ao ver o circo em fase de montagem.

- Tem novela? – perguntava.

 

Ele gostava de tudo no circo, mas as peças teatrais que eram representadas em capítulos o fascinavam mesmo.

Um belo dia, ou melhor, uma bela noite, nos preparamos para ir ao circo. Meu avô, eu e meu tio mais novo, Edvaldo, que todos chamavam de Valter, ou ainda, Vate. O outro tio, Giovaldo, Gil, disse que ia depois, não estava disposto. Saímos mais cedo para pegar o melhor lugar. Sentamos no meio, bem em cima, para o palhaço não nos obrigar a subir no picadeiro. Dali assistimos a um maravilhoso espetáculo. Estávamos felicíssimos, até que o apresentador anunciou o último número da noite:

 

- Um desafio! – entrou um gigante musculoso enquanto o apresentador anunciava – quem enfrentar “Torpedo” numa luta livre e conseguir ficar de pé por mais de cinco minutos leva um prêmio de...” Não lembro mais a moeda da época, mas era o bastante para um jovem, baixinho, magro, se levantar e aceitar o desafio. O velho Toinzinho pulou:

 

- É Gil, ô menino doido. Sai daí Gil, você vai se arrebentar, infame!

 

Meu avô tremia todo, e nós, Valter e eu, tentávamos segurá-lo, mas de olho na luta que estava por começar. “Torpedo” deu uma, deu duas, deu três, quatro... encheu meu tio de porrada... resultado: voltamos nós carregando tio Gil numa gemedeira de fazer dó, porque a essa altura ele não conseguia nem abrir os olhos, era pura dor, cheio de hematomas, uma catástrofe.

 

No outro dia, na venda de Toinzinho, não se falava de outra coisa.

 

- Minha gente, eu sô sertanejo, meu fí é sertanejo, só podia dá nisso. Vá lá no circo pra vê: o disinfiliz num aguenta nem levantá, num é Gil? – perguntava com olhar severo, para meu tio, que parecia uma múmia, tanta faixa tinha pelo corpo – Num é, Gil?

 

Gil respondia: Ai! É, pai, é! Ai!

 

*** Romualdo Lisboa é dramaturgo e diretor do Teatro Popular de Ilhéus. Está no grupo desde a fundação, em 1995.  

 

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