Toinzinho, um revolucionário!

May 10, 2017

Por Romualdo Lisboa* 

 

A casa em que meus avós maternos moravam, lá no bairro Vermelho, em Ibicaraí, foi palco de inúmeras aulas de relações humanas, aulas práticas de como viver bem, apesar da existência do outro, o famigerado outro.

Certo domingo de manhã, o sol mal havia riscado o céu azul, chega meu tio Nego Nen seguido de sua esposa, Pêda Véa. A mulher vinha aos berros, chorando desvairada pelo meio da rua, tornando-se centro da atenção das fofoqueiras de plantão. Correm meu avô e minha avó.

- O que é isso, Dominguinho? Perguntou, seu Toinzinho.

- É essa desgraça! Respondeu, Tio Nen, se referindo à sua mulher.

- O que é isso? Indagou mansamente, dona Arcanja, minha avó.

- Essa minséra, pensa que é mais do que todo mundo. Mais agitado ficou Nego Nen.

- Mas, explica de uma vez. O que foi que aconteceu?

Enervou-se, seu Toinzinho.

Foi então que se explicou: na noite anterior o vizinho deles – eles moravam na Ruínha – ligou o som no maior volume. Era seu Alexandrino. Ele tinha um som de colocar em palanque em dias de comício ou shows beneficentes, alugava. O homem tinha o maior orgulho de possuir aquele equipamento, o único em Ibicaraí, daí quando bebia, quando enchia a cara, colocava o som no meio da rua e lascava a ouvir Roberto Carlos a noite inteira. A vizinhança cansou de reclamar, fizeram até abaixo-assinado, mas nada. Sempre que tomava umas cachaças a mais, seu Alexandrino ouvia Roberto Carlos até o dia amanhecer.

- Aí a doida pegou o facão e saiu porta fora pra enfrentar o bêbo. Arrematou, tio Nen.

- Mas é um desrespeito. As criança não consegue dormir. Ninguém consegue dormir, quando o dono da rua resolve escutar música. O pior é que é Roberto Carlos até o “feverêro fazê bico”. E num aparece um fila da puta pra metê a mão naquele fí da peste. Aí eu me retei. Peguei o biscó e fui tirar satisfação. Quando é depois o apalermado do teu fí vem me puxar pelo mei da rua...

- Pra tu num tomar uma surra do desgraçado e eu num tê que brigar cum ele.

- E tu tem corage de brigar cum ninguém, Nego Nen, tu tem? Falou Pêda Véa.

- Você me respeite! Avançou pra esganar a mulher, mas Toinzinho não deixou.

- Pára! Vocês tão brigando por besteira. Onde já se viu? Ela tá certa mesmo, Dominguinho. Quando nóis vê o má feitcho, num pode fica calado, não. Tem de reclamá. Tem de butá a boca no trombone. Se tá tirano sua liberdade, num pode deixa pra lá, não. Agora num precisa sair por aí de facão na mão, né Pêda Véa?

O sermão de meu avô serve para nós que, quase sempre, deixando as coisas como estão, por conta de um comodismo interessante para uns poucos que têm poder de escolha. Seu Toinzinho, acho que além de revolucionar, era Marxista.

- Pra nóis, Dominguinho, que somo pobre, a única coisa que resta é nossa coragem pra reclamá, pra exigí nosso diretcho. Num fique pensando que os metido a besta, os rico e os político, olha por nóis não. Eles enxerga mesmo é os’umbigo deles. E esse tá de Alexandrino eu conheço bem. É um metido a besta. Só porque o som dele é maior que o dos outros ele acha que é melhor. Que pode mais.

- É mesmo pai. Concordou Nego Nen. O abestalhado fica é dependendo de ter uma festa ou época de eleição. O resto do tempo vive às custa da mãe.

- Pois é. Falou Toinzinho. Num presta nem pra arranjar um emprego. Cês tem é que dá parte dele na puliça. Eu sei que a puliça e nada é a mesma coisa. Mas pior é fazê justiça com as próprias mão.

- E vê se faz as paz de uma vez. Vocês sempre foro unido. Arrematou dona Arcanja.

E com esse discurso, seu Toinzinho acalmou os ânimos do filho e nora sem deixar de torná-los combativos. Um verdadeiro revolucionário, meu avô. Depois que os dois saíram, eu, que sentado num banquinho assisti a tudo, perguntei:

- Ô, Padinho. Se fosse o senhor, o que é que o senhor fazia?

Ele pensou um pouco, levantou o inseparável chapéu de couro, coçou a cabeça branca e lançou-se em mais uma bravata:

- Eu pegava o facão da mão dele e cortava o fí duma égua todinho, depois ainda furava o som dele todo.

- Calma valente! Exclamou minha avó.

 

*** Romualdo Lisboa é dramaturgo e diretor do Teatro Popular de Ilhéus. Está no grupo desde a fundação, em 1995.  

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